6.3.07

O PERIGO

Fomos invadidos! Máquinas terríveis, libertadoras de gazes nocivos à saúde e à natureza, são, sem nos apercebermos muito bem, as causas do maior número de mortes, em Portugal e no resto do mundo.

Posso, portanto, afirmar que são máquinas assassinas, com a agravante de não nos deixarem ter consciência disso. Quase todas as famílias já tiveram vítimas, mas nem por isso desconfiam das causadoras. São usadas todos os dias por milhões de pessoas. Há-as desde ligeiras e leves até às que pesam toneladas e se movem com barulhos ameaçadores estremecendo tudo por onde passam.

Mesmo quando parecem em repouso, não são de confiar. Se algum incauto lhes toca, podem começar a acender e a apagar as luzes ao mesmo tempo que emitem um som alto, estridente e alarmante. Encontram-se, hoje em dia, por todo o lado. Há armazéns enormes, de vários pisos, onde permanecem ou entram e saiem constantemente. Aparecem-nos, quando menos esperamos, em cima dos passeios. Ao virar uma esquina podemos ir contra alguma; nas ruas encontram-se em constante movimento, passando a raspar-nos a toda a pressa; por vezes, ficam imóveis a tapar os acessos às nossas habitações; chegam a bloquear ruas inteiras e até autoestradas de várias pistas.

São uma ameaça. Alteram a personalidade dos seres humanos. Pessoas que conheço pacatas, respeitadoras da lei, do bom senso e com valores cívicos dos mais respeitáveis, quando se colocam dentro dessas máquinas, podem mudar completamente. Desatam a chamar nomes aos outros iguais, gritam por tudo e por nada, não cumprem a lei, desprezam os que se deslocam de outro modo, disputam a passagem por determinado ponto, fazem sinais impróprios e provocam ruídos incomodativos. Quando se livram de tais monstros, parece voltarem ao normal. Bons pais de família e respeitadores de códigos e de pessoas.

O número de tais máquinas não cessa de aumentar. Tiveram que arranjar cemitérios para os mais velhos, para os que já não se podem mover por estarem todos retorcidos e para os abandonados. Por este andar, em breve ocuparão todo o espaço e nós teremos que nos limitar a pequenos recantos onde eles não conseguem entrar.

As autoridades deviam estar alertas para este perigo, mas eu vejo-as, frequentemente, a confraternizarem com tais máquinas. Quem nos poderá salvar?