10.11.06

Há condutores e há chicos espertos

Um anónimo comentou, no post anterior, que mais valia andar de carro em Pinhal Novo do que correr o risco de morrer a pé. Para além de óbvio, tão válido como afirmar que mais vale andar a pé do que correr o risco de morrer de carro, esse comentário implica outras coisas.

A superioridade de andar de carro. Quem o faz adquire, imediatamente, alguns privilégios, mais notórios em Pinhal Novo, pequena vila em desenvolvimento, do que em Lisboa, por exemplo. Aqui, nesta terra, os carros têm direito a estacionar em qualquer local onde caibam. Um passeio, não é espaço reservado a peões. É mais um sítio onde se pode estacionar sem ter que andar uns metros para ocupar um lugar adequado. Se a rua é estreita e não podem estacionar dois carros, não há problema, vai para cima do passeio, os que andam a pé que se safem como conseguirem. Então, no verão, com o calor a apertar e o sol a bater forte, para quê deixar o carro à torreira se, junto aos prédios, em cima dos passeios, há tantos lugares à sombra.

Claro que se um inválido, em cadeira de rodas, tiver que passar pela estrada isso não é problema deles. Se em muitos locais até há rampas para eles não terem que galgar passeios e estragarem as jantes, só os parvos é que não aproveitam. Pessoas a empurrar o carrinho do bebé, que por culpa deles não podem passar onde é mais seguro, vão para o meio da rua que é o lugar de carros, carrinhos e tudo o que tenha rodas para andar. Para estacionar é que servem os passeios.

Aqui, em Pinhal Novo, é fácil assistir a alguém a arrumar o carro junto ao prédio onde vai entrar, sem se preocupar com o facto de 20 metros mais à frente existirem vários lugares livres, próprios para esse fim. Ou reparam e não se importam, que de noite pode-lhes dar a saudade de ver o carro e se ele estiver debaixo da janela é muito mais prático.

Sim, reconheço a validade da afirmação do anónimo. Ter carro é ter um passe que dá direito a várias regalias. Atropelar ou assustar peões nas passadeiras é outra delas. Buzinar a qualquer hora do dia, é mais uma. Ir ao bar tomar qualquer coisa e deixar três carros bloqueados por se ter estacionado no meio da rua, constitui outra. Há mais, mas estas já me envergonham o suficiente por lhes chamarem seres humanos.

Aqueles e aquelas que conduzem e procuram, o melhor possível, para além do cumprimento da lei, portarem-se com civilidade, que não desanimem. Ouvirão, algumas vezes, esses chicos espertos a chamarem-lhes nabos ou pior. Em algumas ocasiões até serão prejudicados por eles. Muitas vezes terão que ter cuidados redobrados com tais condutores. Mas o facto de saberem que não fazem o mesmo que eles deve dar algum orgulho, não?