20.3.07

Se...

Se eu fosse jovem faria o Março a partir.
Se estivesse reformado frequentaria a Associação e jogava às cartas.
Se ainda fosse criança andaria no Jardim Infantil e brincava ao apanha.
Se houvesse trabalho, iria trabalhar e entrava e saía a horas e levava dinheiro para casa.
Se houvesse lugar, seria enterrado no cemitério velho e falava com os outros dos bons tempos.
Se entrasse no céu, iria procurar S. Pedro e fazia-lhe as perguntas que trago na cabeça.
Se encontrasse Deus, pediria para voltarmos à terra e mostrava-lhe tudo.

6.3.07

O PERIGO

Fomos invadidos! Máquinas terríveis, libertadoras de gazes nocivos à saúde e à natureza, são, sem nos apercebermos muito bem, as causas do maior número de mortes, em Portugal e no resto do mundo.

Posso, portanto, afirmar que são máquinas assassinas, com a agravante de não nos deixarem ter consciência disso. Quase todas as famílias já tiveram vítimas, mas nem por isso desconfiam das causadoras. São usadas todos os dias por milhões de pessoas. Há-as desde ligeiras e leves até às que pesam toneladas e se movem com barulhos ameaçadores estremecendo tudo por onde passam.

Mesmo quando parecem em repouso, não são de confiar. Se algum incauto lhes toca, podem começar a acender e a apagar as luzes ao mesmo tempo que emitem um som alto, estridente e alarmante. Encontram-se, hoje em dia, por todo o lado. Há armazéns enormes, de vários pisos, onde permanecem ou entram e saiem constantemente. Aparecem-nos, quando menos esperamos, em cima dos passeios. Ao virar uma esquina podemos ir contra alguma; nas ruas encontram-se em constante movimento, passando a raspar-nos a toda a pressa; por vezes, ficam imóveis a tapar os acessos às nossas habitações; chegam a bloquear ruas inteiras e até autoestradas de várias pistas.

São uma ameaça. Alteram a personalidade dos seres humanos. Pessoas que conheço pacatas, respeitadoras da lei, do bom senso e com valores cívicos dos mais respeitáveis, quando se colocam dentro dessas máquinas, podem mudar completamente. Desatam a chamar nomes aos outros iguais, gritam por tudo e por nada, não cumprem a lei, desprezam os que se deslocam de outro modo, disputam a passagem por determinado ponto, fazem sinais impróprios e provocam ruídos incomodativos. Quando se livram de tais monstros, parece voltarem ao normal. Bons pais de família e respeitadores de códigos e de pessoas.

O número de tais máquinas não cessa de aumentar. Tiveram que arranjar cemitérios para os mais velhos, para os que já não se podem mover por estarem todos retorcidos e para os abandonados. Por este andar, em breve ocuparão todo o espaço e nós teremos que nos limitar a pequenos recantos onde eles não conseguem entrar.

As autoridades deviam estar alertas para este perigo, mas eu vejo-as, frequentemente, a confraternizarem com tais máquinas. Quem nos poderá salvar?

18.2.07

CARNAVAL

Numa altura destas, em pleno inverno, com temperaturas a rondarem os 11º centígrados, alguém me consegue explicar porque insistem em deixarem as raparigas (e algumas crianças, Senhor!) desfilarem em fato de banho, mais ou menos reduzido? Porque se envergonham dos nossos trajes tradicionais? Porque querem satisfazer os mirones? Porque elas teimam (neste país de obesos) em mostrar as banhas? Por imitação do país irmão que goza o verão?

Tenho que me rir daqueles pessimistas que temeram que Portugal viesse a ser um país neocolonialista. Nós? Imitamos os Brasileiros, interditamos palavras que têm outro significado na terra deles, adulamos os Angolanos e o seu petróleo, insistimos numa irmandade orfã com Cabo Verde, como poderia alguém imaginar-nos neocolonialistas? Temos mais propensões para sermos culturalmente colonizados do que para o inverso. Perante os outros povos, somos passivos, imitadores, bajuladores, corruptos, subservientes, reverentes, invejosos, lamurientos e choramingas.

Estou a exagerar? Claro! Isto é uma máscara, não estamos no carnaval?

5.1.07

PINHAL NOVO É UMA VILA

Há cerca de 20 anos que aqui vivo. Vi isto crescer para um lado, para outro, depois para outro e agora em todas as direcções.

Quando cheguei, desconhecido, vindo sabe-se lá porquê, conheci pessoas, muitas pessoas. Algumas, ainda receosas da invasão dos forasteiros, mediram-me e tiraram as suas conclusões. Mas encontrei quem se me dirigisse e me fizesse as perguntas que considerava suficientes. Respondi a todas, porque todas eram passíveis de serem postas.

Hoje, é raro ver-se tal atitude. Essas pessoas desapareceram. Ficaram as outras. É mais fácil deitarem-se a advinhar, costurarem na imaginação e catalogarem de acordo com os seus interesses. Alguns dos primeiros conhecimentos já não me falam; em contra-partida falam-me outros que não conheço.

Pinhal Novo é uma vila e, como tal, tem muitos dos defeitos próprios das pequenas localidades. Perdi conhecimentos porque não era quem eles julgavam, mas ganhei amigos que sabem quem sou.

No balanço actual, estou a ganhar por larga margem.

29.12.06

AS LUZES

Não sou daqueles que consideram mal gasto o dinheiro que se utiliza na iluminação da vila, nesta quadra festiva. Se não fossem as luzes, muitas pessoas nem dariam pelo Natal e pelo Fim do Ano.
Assim, mesmo que saiam de casa só para ir até ao café, sempre partilham as boas-festas.

24.12.06

O COMÉRCIO TRADICIONAL

Esta quadra festiva deixa-me irritadiço. Não aguento mais de 15 minutos nos grandes centros comerciais e o comércio local tem muitas limitações.

Assim, quase nunca ofereço prendas neste período. Os meus familiares e amigos já se habituaram e vão aceitando as minhas manias. No entanto, há imponderáveis. Surgem para perturbar a minha ordem e para me obrigarem a ir às compras.

As grandes superfícies, normalmente, locais de romaria, nesta época são um caos. A música, as luzes, as cores alegres, a gente nova e bem disposta, tudo serve de chamariz para a festa. E as pessoas vão. E o ar de festa aumenta com o barulho desta alegre multidão. Famílias inteiras, casais, isolados, todos pretendem o seu momento de alegria e as tristezas que fiquem para o ano que vém. Eu tento. Mas devo sofrer de alguma fobia que me impede de tirar prazer dessas idas. A própria música me incomoda; as luzes a piscarem, a seguirem um desenho lógico de acende/apaga, deixam-me tonto; o mar de gente e a obrigação de ter cuidado com os da frente, com os do lado e com os que nos seguem, cansa-me. Vinte minutos, no máximo, é o que aguento.

Viro-me, então, para as lojas aqui ao lado. Para as da terra. Compro no comércio local e evito as confusões. Pode ser, ligeiramente, mais caro, mas compensa.

Pensava eu. Tive que ir, o tal imponderável de última hora, comprar um perfume. Sabia o que queria e onde havia. Não contava com as excelentes qualidades do comércio tradicional. A simpática empregada que atendia uma senhora, desfazia-se em sorrisos e estava sempre solícita para os pedidos da cliente. Esta, hesitava entre um botão, de determinada cor e feitio, e um outro, de outra cor e de outro feitio.

Eu estava a ver, na prateleira à minha frente, o que me tinha levado lá, mas a senhora não se decidia e a empregada não podia ser mais simpática. Corria a ir buscar mais uma caixa que talvez tivesse exactamente o que ela pretendia. Não, não eram bem daquele género. Ah! Então só podem ser destes. E outra caixa surgia com mais botões, mais cores, mais feitios.

Finalmente assustei-me. Olhe! São exactamente estes que quero. E vou levar os dois. A senhora percebeu muito bem o que eu queria. Por isso é que eu gosto de vir às lojas da nossa terra. Somos conhecidos, bem tratados, com respeito e simpatia e não há gentes aos empurrões nem ninguém a mandar-nos apressar.

Sim, fui bem atendido. Paguei um pouco mais do que pagaria no centro comercial. A empregada foi, também, simpática comigo. E, mesmo assim, não devo ter demorado mais do que se tivesse comprado numa qualquer catedral do consumo.

Então, porquê esta irritação? Porque é que continuo a jurar a mim próprio que nestes dias não me apanham a fazer compras? Salvo, claro está, alguma emergência de última hora...

7.12.06

Erro meu, má fortuna

Não gosto do post anterior. Porque é que o coloquei? Porque me pediram. Podia ter dito que não, que não era o estilo, que não vinha a propósito, qualquer coisa. Mas não fui capaz. Achei que não faria mal, não tinha importância por aí além, podia ser transigente e simpático.

O pior é que fiquei a pensar na cedência. Começa-se por pequenas coisas; é só um jeito, uma coisa sem importância, sem maldade, um pequeno favor. Agora, posso imaginar, a Isabel chega-se ao pé de mim e pede-me que fale de determinado assunto. Como dizer-lhe que não? Então fazes isso ao fulano e a mim não? Imagino que ela não o faria, mas é uma possibilidade. Depois, viria um colega e pedia-me para escrever sobre o lixo que tem à porta de casa. Era um assunto importante, referente à Vila, porque não o havia de fazer?

E, continuo a imaginar, as coisas seguiriam por aí fora até que me decidisse a dizer não de uma vez por todas ou acabasse a fazer a defesa da criminalização do aborto, só para fazer um favor porque até escrevo melhor que quem o pedia.

Acho que está na altura de relembrar o que tenho escrito por baixo do título "ABROLHO":
"Onde se escreve sobre tudo e a propósito de nada, desde que seja o que me apetece."

Acabou-se a imaginação e a incapacidade de dizer não. Porque me apetece!